NÃO ME ABANDONE JAMAIS

Posted: quinta-feira, 27 de dezembro de 2012 by Emmanuel do N. Sousa in
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Perturbador!

Não sei se outra opinião caberia melhor para sintetizar o roteiro do filme “Não me Abandone Jamais”, obra adaptada do premiado romance de Kazuo Ishiguro, que trata de um tema polêmico e, até certo ponto, visto como antiético aos olhos de grande parte da população mundial.

Levado para as telas pelo diretor Mark Romanek, a obra trata de um contexto surreal, onde crianças clonadas são criadas em internatos, educadas e esclarecidas sobre sua verdadeira missão vital: servirem de suporte de órgãos para transplantes em seus “compatíveis”, ou seja, as pessoas das quais foram clonadas.

Foi doloroso assistir uma história de amor, companheirismo e amizade, enfim, bons sentimentos que afloram durante a convivência entre as crianças que crescem unidas em uma mesma instituição, vendo-as divergirem sobre suas verdadeiras condições para existência no mundo e a possibilidade de prolongarem suas vidas ao máximo possível...

O filme não obteve a mesma repercussão que o romance, porém, vermos um tema polêmico, como clonagem, retratado de forma ‘live action’ faz despertar um sentimento difícil de interpretar, onde a condição de ser humano é banalizada, transformando vidas em suportes de órgãos... é quando eu, por exemplo, passo a dar crédito à direita religiosa que teme pelo progresso de certas experiências científicas e os caminhos que elas podem tomar.

O cenário do filme não é um laboratório, ou uma nave espacial: é uma cidade interiorana da Inglaterra, e seus personagens não estão vestidos em malhas cinzas, muito menos contidos em bolhas de ar: estão nas ruas, interagindo com as pessoas, dividindo alegrias, tristezas e, claro, expectativas.

Quando parto para a reflexão pessoal, penso: “-E se chegarmos à esse ponto?!”... Será que o ser humano elevaria seu egoísmo à esse patamar, de produzir seres humanos, dotados de alma e sentimentos, cerceados do direito à vida com livre arbítrio, para servirem de fornecedores de órgãos aos seus “compatíveis”?!

Entre tantas incógnitas, o que precisa ser amplamente refletido é até onde vai a ética do homem no uso da ciência.

“Vocês precisam saber quem são e o que são. É o único jeito de terem uma vida decente."

Parafraseando este trecho da fala de uma das personagens do filme, direciono essas palavras à nós mesmos, os responsáveis pelo presente, para que possamos garantir um futuro em que os caminhos do progresso da ciência não extrapolem os valores humanos da moral e da ética.