Eu vi um menino correndo... (Parte III)

Posted: segunda-feira, 24 de novembro de 2008 by Emmanuel do N. Sousa in
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Em seu primeiro mandato, de início lento e turbulento, Cássio apenas se incomodava em denunciar as perseguições sofridas pelo Sistema Correio de Comunicação e, atribuía o marasmo administrativo à situação dita “deplorável” encontrada nas finanças estaduais através da ‘herança’ do governo anterior.
Enquanto o Estado tentava ‘engrenar’ administrativamente, o governador já articulava seus abnegados vereadores campinenses e os detentores de assessorias na Prefeitura, buscando obstacular qualquer tentativa de sucesso na administração Cozete Barbosa, sendo esta catolicamente ‘aliada’ do governador, inclusive tendo participado da sua eleição para o governo, insurgindo-se ao PT, seu partido, que apresentara candidatura própria, na figura de Avenzoar Arruda.
No entanto, seu plano era simples: depois de ‘jogada aos leões’ Cozete seria facilmente deletada do Palácio do Bispo e, bastava encontrar um nome de consenso para readmitir a PMCG ao seu comando total e irrestrito.
Enquanto a oposição lançara o nome do vereador Veneziano Vital como candidato do grupo maranhista à prefeitura, a palavra de Cássio ainda não louvara o nome de ninguém, até meados do mês de junho, às vésperas da campanha eleitoral.
O nome escolhido foi o do Deputado Estadual Rômulo Gouveia, primeiro acólito do clã Cunha Lima.
Usando, e abusando, da sua figura pessoal e institucional, Cássio participa ativamente do processo como sendo o personagem principal da disputa: parecendo que o ínclito Rômulo Gouveia, apenas, o representaria no comando da Prefeitura Municipal.
Em uma campanha épica, Veneziano Vital é eleito, com uma diferença, inacreditável, de 791 votos sobre Rômulo, ao qual representava toda a máquina administrativa estadual empenhada em sua campanha, incluindo a astúcia do, agora já experiente, Governador Cássio C. Lima.
Dotado da maioria dos vereadores no legislativo campinense, o governador não dá trégua ao gestor campinense em nenhum momento. Através de manipulações, seus bonifrates edis sequer discutiam as matérias do executivo: reprovavam-nas sumariamente.
Assim fora durante os quatro últimos anos!
Porém, em meio ao embate pessoal entre os vereadores campinenses e o prefeito Veneziano Vital, ocorrem as eleições do ano de 2006, onde o projeto de re-eleição do governador Cássio se vê ameaçado pelo retorno do forte adversário José Maranhão em busca da retomada do Palácio da Redenção.
A verdade é que Cássio se utilizou de toda a estrutura institucional disponível para manter-se no comando do governo estadual.
A força de José Maranhão era impressionante.
Provavelmente, se não fosse o escândalo dos “sanguessugas” que envolvia o senador e candidato à re-eleição Ney Suassuna, Zé Maranhão pudesse ter demonstrado um poder maior de embate, e debate, já no primeiro turno.
Vários escândalos foram protocolados na mídia e na justiça eleitoral naquele ano! Os maios famosos foram denunciados e ficaram conhecidos como: Caso Cheques da FAC, Caso Edifício Concorder e Caso A União.
Cada um com sua peculiaridade em especial, os casos FAC e A União renderam ao, até então, intocável e inimputável Cássio Cunha Lima dois processos no TRE-PB, no ano de 2007, dos quais, ambos lhe promoveram a cassação do mandato, multas de R$ 50.000,00 e inelegibilidade de três anos.
Ancorado à uma medida cautelar expedida pelo TSE, continuara no mandato até o julgamento do mérito pelo mesmo órgão.
E, eis que chegamos ao corrente ano!
O ano de 2008 ficará lembrado na memória de qualquer campinense. De qualquer paraibano!
Foi o ano em que a Dinastia Cunha Lima veio ao chão.
Mais uma vez o governador indicara o Deputado Federal Rômulo Gouveia como candidato a prefeito de Campina Grande. E, desta feita, pra ganhar!
Para os que conhecem um pouco da História da Paraíba, o grau de sandice do governador extrapolava qualquer noção de bom senso ou de responsabilidade político-administrativa. Sua conduta remetia à lembrança do ex-presidente João Pessoa: frio, calculista, maquiavélico, perverso, petulante, violento, arrogante e, acima de tudo, a soberba lhe sobrava!
Após transferir o governo do Estado para Campina Grande e participar ativamente, utilizando de todos os recursos pessoais e institucionais, seja como governador, como líder do grupo político e como eleitor, atribuindo os expedientes mais escusos na obtenção de votos para o seu preposto, Cássio e seu grupo sucumbe à Veneziano Vital mais uma vez.
Ah, quem me dera ter presenciado seu semblante nessa hora!
Em Campina Grande, incrivelmente, o Cassismo estava derrotado novamente. A população não atendeu aos clamores de “...pelo amor de Deus, não vamos deixar essa oportunidade passar!”. Os campinenses disseram “não” ao governador em seu “...me dêem um prefeito!”.
Encerrado mais um apoteótico embate político, tudo se manteria na mesma rotina se não fosse, mais uma vez, a petulância do governador ao celebrar em uma confraternização natalina antecipada a tranqüila conveniência na condução dos trabalhos administrativos, afirmando que seus processos de cassação não seriam analisados pelo TSE tão cedo!
E, por ironia do destino, o Ministro-relator Eros Grau pede pauta para julgar o Caso FAC: Instala-se o pânico no Estado!
Em menos de uma semana, as instâncias estaduais se esvaziam com a ‘debandanda’ de todo um aparato jurídico-parlamentar em vistas ao êxito no intento junto ao TSE.
Dia 20 de Novembro de 2008: O dia que ficará registrado na História da Paraíba como dia em que Cássio Cunha Lima tivera o mandato cassado pela análise dos ínclitos ministros do TSE. Primeira derrota pessoal de Cássio, não obtendo voto algum a seu favor, sendo destituído do cargo de governador à unanimidade dos votantes da Suprema Corte Eleitoral: 7 x 0.
Não bastasse o desgaste político após a derrota do seu grupo na disputa pela Prefeitura Municipal de Campina Grande, agora vem a derradeira ‘pá de cal’ em seus mais ambiciosos projetos político-pessoais.
De forma inesperada, através das forças jurídicas, e não nas urnas, Cássio Cunha Lima é destituído de um dos seus cargos. Acentua-se, aí, sua primeira derrota pessoal! Pela primeira vez, a sua pessoa perde uma disputa.
A Justiça, até que enfim, agiu contra um dos Cunha Lima e obteve êxito.

Cássio Cunha Lima, brasileiro, campinense: de menino a homem; de amado a odiado; de vencedor à vencido; quem sabe, daqui pra frente, passe também, de político mais lembrado ao homem de caráter esquecido!
“Eu vi o menino correndo, eu vi o tempo brincando ao redor daquele menino...” (Caetano Veloso).

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